A historiografia da Escola de Annales, fundada por Marc Bloch e Lucien Febvre

O que foi a tão referenciada Escola de Annales? O porquê de ser tão polémica no percurso do século XX? Essas respostas podem ser dadas à luz da emergência crescente das diversas ciências sociais e do surgimento de uma historiografia cada vez mais científica. Isto porque se foi deslocando das circunstâncias políticas e diplomáticas per se e se tornou, crescentemente, um processo. Processo esse que foi maturado na publicação “Annales d’histoire économique et sociale” (1929), que virou a tónica para um estudo cada vez mais socioeconómico e mais sustentado no método científico. São mais os padrões que os acontecimentos isolados que começam a explicar o rumo da História, que se consolidam no coletivo. A História Social passou a mover-se, assim, no sentido quantitativo e estruturalista, até ao momento em que se deparou com o pós-modernismo, abrindo o espectro das narrativas do que é o real.
Perdurou, assim, o esqueleto do estudo da História e, entre outros, o legado de dois historiadores franceses. Um deles foi Lucien Febvre, um dos editores da “Encyclopédie Française” (1935-36) e que assumiu, como objeto primordial do seu estudo, a Idade Moderna. No seu trabalho académico, foi desenrolando um percurso historiográfico em que procurou contextualizar geográfica e ambientalmente os acontecimentos históricos, no sentido da reconstrução da vida quotidiana mais exata possível. O paradigma que se assumiria como histoire totale e que não se coibiria de revelar as influências negativas vindas das esferas sociais e políticas que predominavam na vida dessas comunidades.
Foi com base nesse paradigma que, ao lado de Marc Bloch (que entrará este ano no Panteão francês), estabeleceria esse jornal académico, o conhecido pela sua abreviatura – “Annales”. Como meta, a descrição da história de forma lúdica, de forma a evitar desastres políticos e económicos futuros. Para a academia, o estudar do presente de forma a alcançar um entendimento mais profundo do passado. Seria uma revista com circulação assídua até aos fins dos anos 1930, na emergência da Segunda Guerra Mundial, com os esforços financeiros de privados a recaírem nos primeiros esforços de Guerra e com o aumento dos preços da triagem.
De igual modo, existiam algumas divergências: para Febrve, o “Annales” seria um veículo de ideias, enquanto, para Bloch, seria um meio de comunicação de ideias e de teorias entre as diversas áreas académicas. Isto pese embora, para Febvre, tenha ficado uma missão mais de preparar as gerações futuras de historiadores, já que Bloch foi executado em 1944 pelas suas raízes judaicas. Seria, assim, um dos grandes influenciadores da criação da École Pratique des Hautes Etudes, que se tornaria na École des Hautes Études en Sciences Sociales, assim como o seu pupilo Fernand Braudel. Uma escola que beberia muito desse e do espírito do estruturalismo emergente, proposto pelo antropólogo Claude Lévi-Strauss.
Quanto a Marc Bloch, um medievalista especializado no estudo da Idade Média em França, percorreu diversas universidades do país, indo de Estrasburgo até Paris e Montpellier. Seria nesta primeira cidade que conheceria Febvre e que partilharia a sua visão multidisciplinar, em que a História acasalava com a Geografia, a Sociologia e a Economia. Isto porque considerava que o estudo da História de então se tinha despojado do seu elemento humano e que necessitava de uma abordagem mais social do que propriamente política. Assim, importou a metodologia usada nas ciências sociais emergentes e quis, ao lado de Febvre, estudar a História unida e diacronicamente fluída, libertando-se das compartimentações de tempo e de espaço. Esta História comparativa, que teve sempre o binómio passado-presente subjacente, seduziu outros académicos de toda a Europa e, como tal, a que essa metodologia se tornasse cada vez mais empregue. Entre eles, o belga Henri Pirenne, que era um apologista da longue durée – a longa duração – e que, como tal, fundamentava a emergência dos movimentos civis, sociais, religiosos e políticos com acontecimentos passados, que se foram conjugando com outros.
A ignorância do passado não se limita a prejudicar a compreensão do presente; compromete, no presente, a própria ação.
“Apologie pour l’histoire ou Métier d’historien” (1949)
Bloch, conforme referido, ressentir-se-ia da perseguição feita pelas forças nazis, pelo que também se viu forçado a abdicar de parte da sua presença na “Annales” e de passar a escrever sob um pseudónimo, Marc Fougères. Aliás, o seu envolvimento na Resistência também originou algumas tensões com Febvre, que continuaria a trabalhar em Paris e, depois do fim da Guerra, isto não seria esquecido pelos seus estudantes na Sorbonne, que não raras vezes o apupavam. Não esqueciam o legado deixado por Bloch, tão indispensável quanto Febvre. Bloch, que tanto defendia a História como, ela própria, um objeto de estudo e de exercício intelectual e como condição sine qua non de se fazer a História de refletir com os seus objetivos e os seus propósitos. Por isso, convidava a Arqueologia, a Etnografia, a Literatura, a Psicologia, a Ecologia, entre as já frisadas Sociologia e Geografia, para entrarem neste diálogo e ajudarem a esclarecer os âmbitos e o espaço de atuação da História, que devia transpor as fontes históricas e ir mais além.
Um exemplo paradigmático dado por Bloch era o moinho de água – cruzava as ciências naturais com a tecnologia, a Geografia e a Ecologia. Moinho de água, que se havia tornado numa necessidade económica na Idade Média para todos, mas que se havia concentrado na mão de uns quantos – dos nobres – no fim deste período. Apesar disso, não deixaram de haver críticas a esta posição de Bloch, críticas que o consideravam um teórico medíocre, que reduzia os valores dos indivíduos e das crenças e princípios de cada um a um papel residual e secundário no desenvolvimento das sociedades. Isto não impediu que, discutivelmente, se tornasse no mais célebre dos teóricos de Annales, já que continuou e continua a ser invocado pela sociedade civil e pela academia como referência nos diálogos e nos pensamentos partilhados.
Sobre Fernand Braudel, pupilo de Febvre e de Henri Hauser, um historiador muito vocacionado para a História Económica da fase inaugural da Idade Moderna (entre os séculos XVI e XVII), tornou-se um dos grandes dinamizadores da herança da Escola de Annales. Isto porque, para além do seu aprofundado estudo sobre a evolução do Mediterrâneo, do capitalismo e da identidade de França, foi professor na mencionada École Pratique des Hautes Études e fez parte dessa segunda geração de historiadores de Annales. Geração que mudou tendo em conta a morte de Bloch e a internacionalização desta linha historiográfica. Com fundos privados, criou uma fundação independente, a Fondation Maison des Sciences de l’Homme, que se direcionou para a organização de atividades internacionais, de forma a disseminar a historiografia de Annales pelo mundo.
No que toca ao seu próprio trabalho, Braudel empregou vários dos conceitos advindos de outras ciências sociais e colocou em prática a trajetória da longue durée. Assim, as estruturas que se foram construindo pelos tempos que constituem a História são o pano de fundo teórico para o estudo das circunvoluções que se foram proporcionando no mundo e nas mais diversas sociedades. Com isto, e como já aludido, ficaram menorizados os impactos de eventos específicos, olhados por si mesmos, que Braudel entendia como o conjugar da courte durée – o curto prazo – e a histoire événementielle – a História de eventos. Com isto, visava que se entendessem os efeitos do espaço, do clima e da tecnologia na ação humana e na própria explicação dos eventos que, em cadeia, iam ocorrendo, por exemplo, em França – as duas Guerras Mundiais e as várias revoltas populares que foram desencadeadas antes e depois destas.
Assim, essas estruturas enraizadas na sociedade são centrais e o grande referencial deste percurso historiográfico, cujas infraestruturas – mentais (interiores) e ambientais (exteriores) – ajudam a compor a tal superestrutura – um pouco ao jeito marxista -, que reflete os tais dados sociais, económicos e culturais. Assim, isolar os indivíduos no estudo da História é refutado, dado que as tais estruturas englobam uma longa duração que não foi vivida por eles e que, por isso, não está presente nas suas consciências.
Outro historiador que também partilhou alguns dos preceitos de Annales foi Georges Duby, que se dedicou ao estudo das sociedades e das economias medievais. Porém, a sua maior preocupação passou por colocar as pessoas e o seu dia-a-dia como objeto de estudo, não obstante o seu interesse por estabelecer o paralelismo entre as mentalidades passadas e a mentalidade presente, no ponto de vista do olhar histórico. Como tal, no estudo de eventos, procurava olhar para as formas como foram explicados e relembrados, de forma a percecionar como essa memória foi trazida pelos tempos até ao hoje. Como tal, é mais um teórico que emprega a longue durée para perceber a evolução da História, nomeadamente através do desenvolvimento dos entenderes e dos compreenderes dos eventos no decurso dos tempos. Duby, que seria uma figura popular na imprensa, com uma presença assídua na discussão mediática e a bater-se pela necessidade de uma programação cultural e audiovisual mais educativa.
Nesta “História das Mentalidades”, está integrado Robert Mandrou, assim como Pierre Chaunu – pupilo de Braudel. Porém, na terceira (e última) geração desta Escola de Annales, são outros os nomes que surgem. Jacques Le Goff, que havia sido pupilo de Bloch, é um deles, que teve um olhar atento sobre as tendências políticas, diplomáticas e bélicas que perduraram a investigação histórica do século XIX e que chegou a dirigir a École des Hautes Études en Sciences Sociales. Porém, Le Goff foi um dos progenitores do que se entendeu como “Nouvelle Histoire”, que cruzou a tal História de Mentalidades com a História da Cultura e a “História das Representações”. Aquilo que se tornou revolucionário aqui foi como a própria historiografia – feita em anos, décadas e séculos anteriores – também se tornou parte do objeto de estudo, reciclando o conceito de histoire totale.
Le Goff, contudo, tornar-se-ia mais conhecido pelo seu extenso pecúlio académico sobre a Idade Média, que considerava ser, por ela mesma, uma civilização. Como tal, o seu trabalho mais conotado é, precisamente, sobre esta – “O Nascimento do Purgatório” (1984), um livro em que se viaja pelo espaço físico concebido como o purgatório, entre o paraíso e o inferno, espaços tão imaginados e projetados pela sociedade medieval e pelas suas estruturas clericais. Para cá chegar, Le Goff passa por narrativas de vários santos populares e de outros mitos e lendas, estendendo ainda mais o percurso historiográfico e a diversidade de fontes que os Annales alcançam.
Nesta dimensão temporal está, também, Ernest Labrousse, embora não tão vinculado com a tradição de Annales. Os seus esforços foram mais dedicados para a demografia histórica e, como tal, socorreu-se profundamente da estatística para o fazer. O seu principal objeto de estudo foram as turbulências revolucionárias que se sucederam em França entre os séculos XVIII e XIX, com base numa diacronia social, económica e política. Com base numa recolha intensiva de dados, Labrousse elaborou o seu próprio perfil historiográfico, colocando de lado as narrações quase líricas e excessivamente teóricas para encontrar os números que lhe permitissem efetuar raciocínios e, destes, deduzir as respetivas conclusões.
Já Emmanuel Le Roy Ladurie mergulhou nos tempos do Ancien Régime (corresponde, sensivelmente, ao período da Idade Moderna, que finda com a Revolução Francesa de 1789), em especial no estudo do Terceiro Estado – do povo e do campesinato – na região de Languedoc, no sul de França. Dedicou-se acerrimamente a entender como é que a classe agrícola não produzia em proporção com o aumento da população, levando a crescentes níveis de miséria. As guerras fomentadas pela religião, entre católicos e protestantes, acabaram por alimentar o espírito de revolta por uma sociedade mais justa, unindo-se a um sentido pagão de crença em bruxarias, resultante da herança deixada pelos celtas séculos antes. As próprias histórias mitológicas criadas no seio do seu folclore local, relativas às mulheres que fugiam das suas famílias e que, alegadamente, tinham poderes mágicos, levaram a que fossem germinadas essas sementes de revolta social, promessa que se mantinha latente enquanto as dificuldades económicas prevaleciam.
Desta última geração, resta mencionar dois nomes de relevo na historiografia de Annales. O primeiro deles é Roger Chartier, professor na École des Hautes Études en Science Sociales e com forte pendor para o estudo da História dos livros, da leitura e da publicação e edição destes. Deambulou, assim, pelas áreas da epistemologia da História, procurando perceber as origens do conhecimento histórico e de como se formaram as primeiras fontes de conhecimento livresco. Assentando na Idade Moderna, investigou as práticas e as representações predominantes que ajudaram a cimentar essas sociedades, constituindo legado para os seus diferentes futuros.
Por fim, e também ele membro da “Nouvelle Histoire”, um especialista no que toca aos conceitos de memória e de identidade, tanto nacional, como individual e coletiva. Pierre Nora também fez parte do conselho diretivo da École des Hautes Études en Science Sociales, no qual adotou grande parte dessa filosofia de Annales. Assim, desenvolveu um trabalho aprofundado sobre os lugares de memória, que transitam de pessoa para pessoa, de comunidade para comunidade, podendo ser materiais ou imateriais. São, assim, referenciais culturais, desde práticas a expressões tangíveis ou intangíveis, que comungam de um passado em comum, mais ou menos longo, que ajudam a atribuir significado ao presente e ao futuro e, assim, a formar identidade(s). Os próprios Estados, segundo Nora, podem institucionalizar esses lugares de memória, abrindo espaço a que, para os seus próprios fins, se corra o risco de se criarem memórias a partir de outras tantas: as tradições inventadas.
A Escola de Annales, embora não frutificasse no tempo, continua a ser uma linha de pensamento primordial na historiografia ocidental. Isto já que, de certa forma, abandonou a habitual “História de estórias” e passou a entender contextos passados e presentes para ler eventos que, muitas vezes, caíam isolados no entendimento e na interpretação de quem os (re)vivia. Controvérsia criou-se aquando da História se ter diluído por entre as outras ciências sociais, depois desse diálogo cada vez mais intenso e intensivo com estas. Porém, a História permanece como uma área por si mesma, estrutural, tratando-se da espinha dorsal que dota o mundo e as suas dimensões espaciais e temporais de uma lógica. Lógica essa que pode ser olhada de diversos prismas, mas que nunca descura uma visão clara, isenta, imparcial e íntegra. O esforço da História é o relatar do passado para que o presente o veja e, com este, prepare o futuro. Annales, neste sentido, procurou fortalecer e legitimar a História como uma área mais científica, mais rigorosa, mais pluridimensional. Enquanto os usos da História vão caindo na arbitrariedade do ser humano, o trabalho feito até que os eventos sejam verdadeiramente compreendidos ajudarão a que a humanidade se (re)conheça mais e melhor e dê sustento ao seu futuro.