Amen Dunes: ‘Sempre quis fazer discos que soassem mais límpidos’

por Bernardo Crastes,    17 Junho, 2018
Amen Dunes: ‘Sempre quis fazer discos que soassem mais límpidos’
Fotografia de Geordie Wood
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Damon McMahon tem vindo a fazer música desde há mais de dez anos, mas só com o seu mais recente disco sob o nome de Amen DunesFreedom, tem sido alvo de burburinho, pela aclamação que tem recebido por parte da crítica. É um disco belo, que o vê a deixar para trás um som mais introspectivo e de produção áspera, em direcção a algo mais facilmente apreciável, que ainda assim não perde força emocional. Antes do seu concerto no NOS Primavera Sound, a Comunidade Cultura e Arte conversou um pouco com Damon, que nos falou acerca do novo disco e dos colaboradores que o ajudaram a criá-lo, e da sua relação com Portugal.

Freedom tem sido aclamado como o álbum que te catapultará para a ribalta. Sentiste isso enquanto trabalhavas nele?

Sim, senti que seria um álbum que mais pessoas compreenderiam, definitivamente.

O que potenciou a mudança de um som mais drone para um som mais límpido e directo? Como aconteceu?

Bom, eu quis isso, eu sempre quis fazer discos que soassem mais límpidos, mas gravei os álbuns todos sozinho, por isso não sabia como o fazer. Se tivesse bom equipamento, tê-los-ia feito mais límpidos. Mas sim, queria que este disco soasse melhor, sonicamente, por isso trabalhei com pessoas que são muito boas: Chris Coady [produtor] e Craig Silvey [mixagem], foram eles que o fizeram soar tão bem como soa.

Entretanto começaste a trabalhar com uma banda. Como é que o teu processo criativo mudou?

Novos colaboradores, sabes? Trouxe algumas pessoas novas.

Portanto, tu compões a música e eles trabalham com base nela?

Eu escrevo todas as canções e penso nos arranjos principais, depois eles chegam e tocam a sua parte, mas alguns dos músicos tiveram um papel mais determinante – como o baterista, Parker Kindred. Ele foi o maior contribuidor, ajudou-me realmente, durante um ano e meio, a dar forma às canções, por isso foi um grande colaborador. O resto do pessoal ia e vinha.

Porque no primeiro eras apenas tu…

Bom, eu tenho cinco discos; nos primeiros três era só e depois no Love foi o primeiro em que tive colaboradores: o Parker Kindred e o Jordi Wheeler.

E agora eles estão a tempo inteiro na banda.

Não, eles já não estão na banda. O Jordi fez tours comigo durante muito, mas o Parker nunca. Nenhum dos dois está a fazer tour comigo neste disco; talvez só o Parker, eventualmente.

Estiveste em Portugal duas vezes. Como é que essa estadia te inspirou no processo de fazer o álbum?

Bom, eu escrevi a maioria do Freedom em Lisboa, por isso é fixe que esteja a tocá-lo em Portugal. Fico triste por não tocar em Lisboa este ano – quer dizer, tocarei lá, mas não em Setembro [datas da tour europeia]. Estou a tentar lembrar-me de onde estava a viver, mas não me lembro do nome da rua… mas sim, estive em Lisboa durante seis semanas e escrevi muitas das canções lá.

Fotografia de Michael Schmelling

Como pensas que a cidade te inspirou?

Qual é o nome da palavra portuguesa para ennui? É uma espécie de tristeza…

Oh, saudade!

Saudade, sim! Acho que a saudade me afectou. [risos]

Penso que afecta muitos artistas.

Sim, penso que sim! Ouvi muito Amália [risos].

Isso leva-me a outra questão: o que estavas a ouvir na altura em que estavas a fazer o álbum que te tenha inspirado também?

Neste disco, estava a regressar a todos os meus heróis da pop: grandes artistas como Michael Jackson, Tom Petty, Bruce Springsteen, Bob Marley, pessoas assim; Massive Attack. Foi tipo, poprock, electrónica; música mainstream. Foi isso que me inspirou.

Parece que os títulos dos teus álbuns mais recentes (Love [amor] e Freedom [liberdade]) são grandes conceitos. Será que fazem parte de uma sequência maior ou algo do género?

Fazem parte de uma sequência maior, sim, mas penso que não faria outro álbum com esses títulos. Mas sim, é parte de um processo, quer dizer… depende de como queres olhar para a situação, o que é que essas palavras significam: amor e liberdade? Love referia-se mais a um amor devocional, não a amor romântico. Freedom é liberdade de ti mesmo, liberdade de velhos conceitos de ti mesmo, o que quer que isso signifique para ti [risos].

Realmente são conceitos bastante amplos e cada um pode atribuir qualquer significado aos mesmos…

Também… sabes, foi sincero. Mas também… Amen Dunes é música punk, sempre foi música punk, por isso LoveFreedom são títulos que são muito… sarcásticos, talvez. Love tem um ambiente um pouco agressivo, por isso de certa forma foi sarcástico, mas também foi muito sincero.

Qual é a tua relação com o público português? Recordas-te dos teus concertos cá?

Claro, meu. Adoro o povo português, genuinamente, e o público português é um dos melhores, não estou a dizer isto por dizer. O público português, o inglês, o alemão; são alguns dos meus favoritos, mas as pessoas portuguesas têm muita humildade. Têm tido este… tipo, expertise não é a palavra correcta, mas uma espécie de inteligência, intuição, sensibilidade; as pessoas são cultas, mas ninguém é arrogante, é mesmo fixe. Por isso o público é bastante sofisticado, ponderado e respeitoso. Adoro mesmo tocar aqui.

Este é o primeiro concerto que fazes cá para apresentar Freedom. O que é que o público pode esperar?

Sabes, estive a trabalhar neste álbum durante três anos, mas só o estou a apresentar desde há dois meses, por isso é novo, estou a reaprender a música. Já não toco há uma semana, por isso sinto-me renovado, de certa forma.

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