Entrevista. José Pacheco: “O professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é”

por Ana Isabel Fernandes,    29 Janeiro, 2020
Entrevista. José Pacheco: “O professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é”
José Pacheco / DR
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“Não há alunos com dificuldades de aprendizagem; há professores com dificuldades de ensinagem…”, ressalva-nos mais do que uma vez José Pacheco que, após mais de 30 anos na Escola da Ponte, em Vila das Aves, ruma ao Brasil, tal como Agostinho da Silva, porque crê que o desenvolvimento do ensino do futuro está-se a dar a Sul e não, como etnocentricamente gostamos de pensar, a Norte. Do outro lado do oceano apoiou, por exemplo, o nascimento do núcleo projecto Âncora, que auxilia alunos socialmente desfavorecidos e é tida, actualmente, como uma das melhores escolas do mundo. Chegou à Escola da Ponte como professor substituto de uma docente em baixa de maternidade, ainda nos anos 70, e tinha a seu cargo uma turma de 60 alunos das mais variadas idades. Foi esta situação que o instigou a pensar e repensar os paradigmas da educação. Assim, dessa forma, desenvolve, na época, um novo e dinâmico projecto pedagógico, juntamente com duas colegas, a partir do qual nascem as premissas que regem a Escola da Ponte até aos dias de hoje, agora em São Tomé de Negrelos. Autonomia, liberdade, responsabilidade, entreajuda, noção de comunidade e criatividade em que é o próprio aluno a propor-se para avaliação quando se achar preparado.

Um sistema de ensino que visa respeitar o aluno como ser humano que é, consciente e autónomo, ao permitir-lhe gerir e organizar o seu próprio tempo sem divisões por turmas ou idades. Ao invés do professor que debita a matéria numa aula, o aluno tem uma voz activa no que pretende aprender e o professor serve, antes, como tutor ou orientador. A comunidade assume, dessa forma, um papel fulcral, uma vez que a escola não deveria estar integrada na comunidade, mas ser parte dela, como um todo. Para José Pacheco, as aulas e respectivas salas já deviam fazer parte do passado uma vez que foram pensadas para responderem às necessidades da primeira revolução industrial do século XIX. Muito mudou desde então, menos o sistema educacional, uma das áreas que menos sofreu evolução. Algo difícil de compreender, uma vez que não faltam, como José relembra, grandes pedagogos e pensadores hoje esquecidos — como Irene Lisboa, António Sérgio, Bento de Jesus Caraça, Adolfo Lima, Faria de Vasconcelos, João dos Santos e Agostinho da Silva —, que já defendiam há mais de um século aquilo que hoje ainda denominamos de futuro. Por isso, José Pacheco pergunta “quando cessará o insustentável e obsceno silêncio dos especialistas das ciências da educação?” Mas vamos, agora, ao principal, à entrevista que o professor nos cedeu, por e-mail, há alguns dias.

Associamos, várias vezes, a inovação escolar à inovação tecnológica. De que uma escola do futuro é aquela tecnologicamente bem equipada. Como é que olha para a integração das novas tecnologias na educação? Ajudam, de facto, numa maior democratização, no sentido lato da palavra, ou só isso não basta e poderá nos induzir em erro?
“Inovação” é tudo aquilo que é novo, que possui valor e capacidade de se renovar/reinventar no decorrer do tempo, em permanente fase instituinte. O termo “inovação” tem origem etimológica no latim innovatio. Refere-se a ideias, métodos ou objetos criados que não semelhantes a ideias, métodos ou objetos conotados com padrões anteriores. Em suma: inovação é, efetivamente, algo novo, que contribui para a melhoria de algo ou de alguém. E que pode ser replicado, por exemplo, a partir da criação de protótipos. Inovação será algo inédito, útil, sustentável e de provável replicação. No campo da educação, será um processo transformador que promova ruptura paradigmática, mesmo que parcial, com impacto positivo na qualidade das aprendizagens e no desenvolvimento harmónico do ser humano. Consiste em superar aquilo que se manifesta inadequado, obsoleto. Significa trazer à realidade educativa algo efetivamente novo, ao invés de não modificar o que seja considerado essencial. Pressupõe, não a mera adoção de novidades, inclusive as tecnológicas, mas mudança na forma de entender o conhecimento. As escolas se têm enfeitado de novas tecnologias, mas sem lograr intensificar a comunicação e a pesquisa. Onde há sala de aula, não existe inovação. É um absurdo proibir o uso de celular em sala de aula mas, infelizmente, o modo como as escolas utilizam as tecnologias de informação e comunicação apenas tem contribuído para fomentar imbecilidade e solidão.

Devem ou não estar nas escolas? Como é que os pais devem lidar com o «vício» de se  estar sempre amarrado a um tablet, a um computador, a videojogos?
As ditas “novas tecnologias” vieram para ficar, são incontornáveis, mas a Internet não é uma ferramenta, é uma sociedade. Apenas será necessário saber o que fazer com ela. E que os pais não ajam com autoritarismo, mas com autoridade.

Acesso a muita informação é sinónimo de conhecimento e emancipação? Isso chega? Ou o desafio dos docentes está no modo de orientar o aluno na forma como se processa e trata a informação?
Com ou sem novas tecnologias de informação e comunicação, a escola precisa de ser reinventada. Mas do modo como as novas tecnologias estão sendo introduzidas nas escolas, temo que se transformem em panaceias que apenas sirvam para congelar aulas em computadores, aulas que os alunos, acostumados ao imediatismo e à velocidade dessas tecnologias, acriticamente consomem sem resquícios de cooperação com o aluno vizinho, dependentes de vínculos afetivos precários, estabelecidos com identidades virtuais.

A Internet é generosa na oferta de informação. Basta clicar para repetir, até que a matéria seja compreendida. Tudo aquilo que um professor pode “ensinar” numa aula está plasmado, de modo mais atraente, na tela de um computador. Mas os professores do “futuro” irão manter-se ancorados em aulas obsoletas servidas por lousas digitais ou irão atualizar-se? Irão replicar aulas congeladas no YouTube e em tablets, ou irão usar o digital ao serviço da humanização da escola?

Os PowerPoints são ou não aliados da educação? Há sempre aquela questão, se o projector falha, parece que já não se consegue ensinar.
Um estudo conduzido na Universidade de Nova Gales do Sul (Austrália) descobriu que utilizar um auxílio visual igual ao que está sendo falado, ao contrário do que se imagina, não facilita a compreensão. Outro estudo, feito por pesquisadores da Universidade de Harvard, afirma que não há um propósito de existência do Power Point. Isso, porque eles descobriram que o grau de satisfação de uma audiência para com uma apresentação é o mesmo, independente da presença ou não de auxílio visual. Os académicos também observaram que o editor de apresentações pode estar contribuindo para tornar as pessoas mais burras. A facilidade do auxílio visual de gráficos, listas e slides tem ajudado a promover um novo tipo de gramática corporativa, onde o importante não é passar uma informação correta, mas passar uma informação com estilo. Propostas com lógica sofista, informações sem contexto e que se apegam na causalidade de fatores são cada vez mais comuns. Com isso, essa nova argumentação, onde o modo como se fala é mais importante do que o conteúdo da fala, está ajudando a deixar as pessoas cada vez menos inteligentes.

José Pacheco / Fotografia de Felipe Panfili

O que acha da implementação, em Portugal, do projecto “Salas de Aula do Futuro”?
Se o projeto se refere a salas de aula, será mais um projeto-paliativo porque, no futuro, não haverá salas de aula.

A seu ver, o que é que haverá, então?
Certamente, a concepção e desenvolvimento de uma nova construção social de educação. Aquela que foi concebida no século XIX correspondeu a necessidades sociais do século XIX… Para uma Educação do Futuro, uma Escola de futuro. É absurdo falar em salas de aula, quando se fala de Educação do Futuro.

Gostava de saber, em específico, a sua opinião sobre a Educação Especial em Portugal.
Apesar da publicação de decretos e dos esforços de bons educadores, a inclusão continua a ser uma miragem. Será necessário assumir o princípio de que não há alunos com dificuldades de aprendizagem, mas professores com dificuldades de ensinagem. Será necessário reconhecer que todas as crianças são “especiais”. E de que as escolas deverão abandonar práticas fundadas no paradigma instrucionista, substituindo-as por práticas fundadas no paradigma da aprendizagem e da comunicação. A educação é um direito de todos. Só poderá ser inclusiva. Ou não será educação…

Olhando para a escola como um todo integrado, essencialmente, na comunidade, gostaria de saber a sua opinião sobre a importância do ensino na comunidade para os alunos com deficiência.
A escola não deverá estar integrada na comunidade, mas fazer parte da comunidade, ser mais um locus de encontro e de aprendizagem. E não há alunos (pessoas!) com deficiência – há práticas escolares deficientes.

Para se modificar o ensino, essa modificação não terá de começar na forma como a preparação dos professores, a partir do 5º ano, está demasiado fragmentada? Preparam-se os professores, a nível de currículo, para a matéria daquela disciplina em si, mas falta o ensinamento a sério a nível de pedagogia.
Não precisaremos de “modificar o ensino”, mas de criar condições de aprendizagem. A preparação dos professores está fragmentada como, cartesianamente, está fragmentado o sistema de ensino. A formação de professores continua imersa em equívocos, continuamos cativos de um modelo de formação cartesiano que impede um re-ligare essencial. Sabemos que um formador não ensina aquilo que diz, mas transmite aquilo que é, veicula competências de que está investido. Mas ainda há quem ignore a existência do princípio do isomorfismo na formação, quem creia que a teoria precede a prática, quem considere o formando como objeto de formação quando deveria ser tomado como sujeito em autotransformação no contexto de uma equipe, com um projeto. Prevalecem práticas carentes de comunicação dialógica, culturas de formação individualistas, de competitividade negativa, de que está ausente o trabalho em equipe.

José Pacheco / Fotografia de Educare.pt

Tenho curiosidade em saber, em particular, o impacto que o trabalho de Nise da Silveira teve em si.
Dizia o Sartre que há dois tipos de pessoas que dizem a verdade: as crianças e os loucos.  E que os loucos são internados em hospícios, enquanto as crianças são educadas. Ambos estão “guetizados”: os loucos em hospícios, as crianças em prédios-escolas. A mesma sorte dos velhos relegados em lares da terceira idade. A salutar criatividade da infância é cerceada pela louca velha escola, mas a busca da verdade e da beleza é domínio em que nos é consentido ficar crianças toda a vida, como nos dizia o sábio Einstein. Andei pelo Engenho de Dentro, na boa companhia do Vítor Pordeus. Acompanhei a génese de uma comunidade de aprendizagem que a Nise e os loucos de dentro aprovariam, mas que os loucos de fora inviabilizaram.

Tendo em conta que Nise da Silveira foi a grande impulsionadora da terapia ocupacional no Brasil, dando destaque às técnicas projectivas como a pintura, gostaria de saber, na sua opinião, como essas mesmas técnicas projectivas poderiam ser transpostas para a escola comum e que impacto teriam no desenvolvimento do aluno. Quando falo de técnicas projectivas, falo da importância que o desenho e a pintura têm mas, em especial, da forma como as imagens mentais que se dão antes da verbalização são essenciais e primordiais para o nosso desenvolvimento cognitivo, pessoal e verbal, também.  E como é necessário uma aproximação afectiva e pessoal para esse processo se desencadear.
Estás a falar de “educação integral”. O ser humano é multidimensional – intelectual, afetivo, ético, estético, emocional… que é algo ausente das práticas comuns. Mas as pinturas dos considerados loucos, nos quais reconhecemos genialidade, deram origem a um belo museu e são prova de que nem tudo está perdido.

O Museu de Imagens do inconsciente. Então, já teve a oportunidade de o visitar e travar contacto com as pessoas que o mantêm?
Sim. Conheço e visitei-o. Não tive oportunidade de contato com as pessoas. Gostaria…

A consciência dá-se antes do verbo? A não-compreensão disso poderá afectar o desenvolvimento e facilitar a rotulagem de alunos que, apenas, precisam de outra abordagem?
Não sei.

O que eu quis perguntar com isto é que o ensino apoiado numa lógica cartesiana começa pelo final e não pela base. Dá-se mais valor à verbalização e aos alunos que já têm essa faculdade mais desenvolvida, mas, porém, esquece-se o que há para trás, as tais bases de desenvolvimento para, efectivamente, todos se poderem desenvolver. A consciência de um bebé não se dá, apenas, com a primeira palavra. Depois, há outra questão. Não há um só tipo de linguagem. As formas de linguagem são múltiplas. Ao dar-se primazia a uma só, está-se a inviabilizar outros métodos de aprendizagem dos quais os alunos poderiam beneficiar. Não será por isso que é mais fácil a escola dizer que aquele determinado aluno que não entende tem um défice qualquer e não é capaz?
Desde sempre, a escola procurou explicações para o insucesso. E prevaleceram as teorias de referencial socioeconómico, ou sociocultural, para além da teoria dos dotes. A verdade é que o insucesso é sobretudo de origem sócio-institucional. Isto é: o insucesso decorre das práticas obsoletas da escola dita tradicional. Não há alunos com dificuldades de aprendizagem; há professores com dificuldades de ensinagem…

Segundo a sua concepção de pensamento em relação à escola, é ou não é possível levar todos no mesmo barco de desenvolvimento e compreensão?
É possível. Ressalvada a eventual manifestação de arrogância da afirmação, essa possibilidade existe, desde há mais de quarenta anos. E numa escola portuguesa.

A escola da Ponte, uma escola pública, escola a que já se refere como um fóssil mas que, a seu ver, continua a ser a melhor do país. O que falta para, a nível público, se apostarem em mais escolas da Ponte sem esquecer a consequente evolução e inovação?
Falta cumprir o artigo 48.º da Lei de Bases.

[Administração e gestão dos estabelecimentos de educação e ensino.
1 – O funcionamento dos estabelecimentos de educação e ensino, nos diferentes níveis, orienta-se por uma perspectiva de integração comunitária, sendo, nesse sentido, favorecida a fixação local dos respectivos docentes.

2 – Em cada estabelecimento ou grupo de estabelecimentos de educação e ensino, a administração e gestão orientam-se por princípios de democraticidade e de participação de todos os implicados no processo educativo, tendo em atenção as características específicas de cada nível de educação e ensino.

3 – Na administração e gestão dos estabelecimentos de educação e ensino, devem prevalecer critérios de natureza pedagógica e científica sobre critérios de natureza administrativa.

4 – A direcção de cada estabelecimento ou grupo de estabelecimentos dos ensinos básico e secundário é assegurada por órgãos próprios, para os quais são democraticamente eleitos os representantes de professores, alunos e pessoal não docente, e apoiada por órgãos consultivos e por serviços especializados, num e noutro caso segundo modalidades a regulamentar para cada nível de ensino.

5 – A participação dos alunos nos órgãos referidos no número anterior circunscreve-se ao ensino secundário.

6 – A direcção de todos os estabelecimentos de ensino superior orienta-se pelos princípios de democraticidade e representatividade e de participação comunitária.

7 – Os estabelecimentos de ensino superior gozam de autonomia científica, pedagógica e administrativa.

8 – As universidades gozam ainda de autonomia financeira, sem prejuízo da acção fiscalizadora do Estado.

9 – A autonomia dos estabelecimentos de ensino superior será compatibilizada com a inserção destes no desenvolvimento da região e do País.]

José Pacheco / Fotografia de José Miguel Silva

Fala muito, nas suas TedTalks, na forma como o desencadeamento da educação do futuro vai partir do sul e não do norte. Pode explicar o porquê?
No Brasil, uma nova educação acontece, cumprindo a profecia do Mestre Agostinho. Um artigo seu, publicado ainda no tempo em que foi professor da Universidade de Brasília, rezava assim: Portugal desembarcou na África, na Ásia e na América; só falta a Portugal desembarcar em… Portugal. Proféticas palavras. Depois de me ter emancipado de um soberbo etnocentrismo europeu, me apercebi de que esse “desembarque” irá acontecer através de uma nova educação, que está a nascer no hemisfério sul. Está a nascer no Sul uma Nova Educação, aquela que muitos visionários anunciaram, desde há mais de um século. Acompanho uma revolução silenciosa, uma revolução que já não poderá ser silenciada. Convertido ao sul, busco fazer a minha parte. E, numa viagem ao Norte, expus essa intenção a europeus e norte-americanos. Etnocentricamente convencidos de que é no Norte que mora a novidade, desdenharam. Arrepender-se-ão…

No caso do Brasil, as políticas de Bolsonaro não põem em causa essa sua ideia? A realidade política tem um forte peso na educação. Aliás, falar-se de educação é falar-se de política.
É evidente que haverá estragos. Bastará atentar em energúmenos desabafos de afetos do regime, absurdos como “Toda civilização humana está construída em homens fortes, não em maricas. A mulher e a família precisam de homens fortes”. No tempo da “velha senhora”, envolvido em atividades antifascistas, todos os dias meditava sobre um provérbio oriental, que fala de “homens fortes”: Homens fortes produzem tempos fáceis. Tempos fáceis produzem homens fracos. Homens fracos produzem tempos difíceis. Mas, nos tempos difíceis, se produzem homens fortes. Isto talvez responda à tua pergunta.

Brasil poderá ter Paulo Freire, Nise, mas Portugal também tem Irene Lisboa que, pura e simplesmente, não é relembrada.
São muitas as memórias assassinadas. A Irene não está sozinha. E António Sérgio? E Bento de Jesus Caraça? E Adolfo Lima? E Faria de Vasconcelos? E João dos Santos, E Agostinho da Silva? E tantos outros, que os professores não conhecem, ou não praticam. Vão à Finlândia, quando têm muitas Finlândias cá dentro.

Agostinho da Silva que, tal como o José já teve a oportunidade de frisar, também partiu para o Brasil e tinha a crença que a evolução começaria por aí. Também tinha uma visão universalista, essencialmente da educação. Não lhe parece um contrassenso que pessoas nascidas já no início do século XX tenham descoberto e defendido o que hoje ainda chamamos de futuro?
Respondo com uma pergunta: quando cessará o insustentável e obsceno silêncio dos especialistas das ciências da educação?

Voltando à questão do desenho e artes em geral. Como pessoa, essencialmente, curiosa da cultura livresca e artística, facilmente compreendo como a arte é o grande pólo em que as diversas áreas do saber se encontram e como se podem influenciar entre si. Tendo em vista isso mesmo, pergunto se a fragmentação das próprias disciplinas não atrapalham, por um lado, o desenvolvimento do indivíduo e um entendimento mais profundo das coisas. Relembrando a minha experiência pessoal, eu era boa aluna, mas uma autêntica nulidade a matemática. O que sei e não esqueço a esse nível devo-o à música e até à filosofia. Até é possível relacionar a grande literatura com a ciência. O desenho, por exemplo, pode até ajudar na verbalização, noção espaço-temporal e orientação espacial.
Como diria o saudoso João dos Santos, só pergunta quem sabe… Por isso, a tua pergunta é longa e a resposta é breve: as escolas, que eu ajudo a criar (e que são escolas que a todos garantem o direito à educação) têm por centro a arte. O núcleo do Projeto Âncora, por exemplo, é uma tenda de circo, uma ágora. E essa escola está no rol das melhores escolas que o mundo tem.

Outra questão importante para a qual a sociedade ainda está a tentar encontrar uma resposta. A hierarquia da escola tradicional não ajudará a espoletar ou piorar os casos de bullying? Como é que se deve lidar com esta questão?
O bullying é, também, consequência da manutenção de um modelo educacional obsoleto. Por que se age sobre consequências, se já é tempo de agir sobre as causas? Se o discurso é unânime é preciso reforçar a autoridade dos professores! —, a prática contraria o discurso. A regra é a transferência da autoridade do professor para os órgãos de gestão e para burocráticos procedimentos disciplinares. Autoridade não rima com controlo, imposição, submissão. Etimologicamente, a palavra autoridade significa “ajudar a crescer”. Ajudar a crescer pressupõe o exercício do diálogo e a desocultação de perversos modos de relação. Como diria o Brecht, diz-se das águas de um rio que são violentas, mas nada se diz das margens que as comprimem… Por mais que custa reconhecer, perante a violência simbólica imposta pelas escolas, a desobediência, a indisciplina, o bullying, poderão ser manifestações de sanidade mental. Longe vai o tempo em que o pai era a autoridade na família e em que o professor era a autoridade na escola. Os jovens deveriam obedecer a ordens e estar atentos às lições. Hoje, a indisciplina herdeira do autoritarismo e da permissividade ocupa o lugar desse “respeitinho” de antigamente.

O bullying não é um fenómeno recente. Há mais de quarenta anos, deparamo-nos com situações de bullying. Nos apercebemos de que não poderíamos resolver os problemas da criança sem resolver os problemas dos adultos ninguém dá aquilo que não tem, ninguém transmite aquilo que não é. Compreendemos que a aprendizagem é antropofágica: não aprendemos o que outro diz aprendemos o outro. E o professor não ensina aquilo que diz, transmite aquilo que é. De uma educação para a cidadania, passámos a uma prática de educação na cidadania. O adestramento não define a educação. A educação é incompatível com a organização autoritária da vida. E, para que consiga recuperar a autoridade, é necessário que o professor se conheça afetivamente e se reconheça no outro. A segurança gerada permite ao professor ser senhor de si, elevar a autoestima e beneficiar de hétero-estima. Mas quem cuida da melhoria da formação pessoal e social do professor? Quando se operará a ruptura com a cultura do “cada qual por si”, que infesta as nossas escolas?

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