A filosofia elementar na literatura de Jostein Gaarder

por Lucas Brandão,    21 Julho, 2018
A filosofia elementar na literatura de Jostein Gaarder
Jostein Gaarder
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Nascido em 1952, Jostein Gaarder transporta, desde a escandinava Noruega, um culto pela literatura filosófica, que disponibiliza aos mais pequenos, perspetivando, através dos seus olhos, o mundo e o encanto subjacente a este. Não são incomuns as ocasiões em que narra histórias dentro de outras histórias, na transmissão de valores elementares que passam despercebidos numa sociedade veloz e exigente em tantos outros aspetos que não a moral humana. Ativista fora da ficção, inspira-se nos valores que mobilizam os seus contos para procurar uma maior sustentabilidade para todos, longe da atmosfera consumista e complexa que preenche o ar que se respira nos dias de hoje.

Jostein Gaarder nasceu a 8 de agosto de 1952 em Oslo, capital da Noruega, onde cresceu e viveu por mais de vinte anos. O seu pai era diretor de uma escola e a sua mãe professora e autora de literatura infantil, passando essa apetência para o seu filho. A formação do futuro autor passaria pela Escola Catedral de Oslo e pela universidade da cidade, onde estudou idiomas escandinavos e teologia. Em 1974, casar-se-ia com Siri Dannevig, passando a viver em Bergen, a segunda cidade mais importante do país, cinco anos depois, tendo dois filhos. Antes de se começar a redigir contos literários, viria a lecionar na escola secundária na cidade na qual vivia então, dando aulas de filosofia. Entretanto, enviá-los-ia para jornais locais, assim como artigos e poemas, tentando obter alguma recetividade de quem o lia. O seu início seria marcado por “The Rare Bird” (1986), marcado pela pausa de introspeção filosófica sugerida pelos dez protagonistas que, em contextos diferentes, pausam o seu quotidiano para questionar a realidade, com o autor a pautá-los com o recurso à poesia). Seguem-se “The Children from Shukhavati” (1987) e “The Frog Castle” (1988), onde confrontava o fantástico com o real, explorando ideias e valores e o que lhes era subsequente.

Fotografia de Kimm Saatvedt

Seria nos anos 90 que atingiria o seu auge literário, de uma carreira que tinha começado com algumas obras no final da década anterior. Gaarder arrancou a década com “The Solitaire Mystery”, numa obra que apontava a públicos mais jovens, mas que acabou por abranger muitos mais. A filosofia é apresentada de forma subtil e despercebida, intercalando a história do jovem de 12 anos, Hans, e do seu pai, que procuram a mãe perdida há oito anos; e a de um pasteleiro, que é lida pelo menino. Esta contextualização filosófica alcançaria a revelação e o seu amadurecimento na célebre obra “Sophie’s World”, de 1991. Sophie é uma rapariga que vive na Noruega e que é inspirada pelo seu professor de filosofia, Alberto, em descobrir o pensamento filosófico e a sua evolução desde tempos remotos, para lá dos tempos em que se iniciaram os sinais de vida humana. Tudo isto a partir das perguntas basilares da filosofia: “quem és?” e “de onde vem o mundo?”. Esta trajetória prossegue até às origens do mundo, chegando ao essencial da filosofia ocidental e ao seu cruzamento com o mistério implicado na própria narrativa. A sua fama chegaria ao cinema e até aos videojogos, proliferando-se para lá dos limites do território do seu país, que chegariam a considerar um dos seus mais recentes livros, “The World According to Anna” (2013), como um sucessor da obra de 1991, abordando as questões climatéricas e a alienação dos jovens em relação à Natureza.

“Para muitas pessoas, o mundo é tão incompreensível quanto o coelhinho que um mágico tira de uma cartola que, há poucos instantes, estava vazia.

“Sophie’s World” (1991)

Seguidamente, seriam lançados “The Christmas Mystery” (1992), que enreda várias narrativas pelos dias do advento, de histórias que se desconstroem noutras tantas; assim como “Vita Brevis: A Letter to St. Augustine” (1996), escrito por um sujeito narrativo muito peculiar, a amada de Santo Agostinho, citada mas não nomeada nas suas “Confissões”, tecendo uma crítica ao ascetismo pouco recetivo à experienciação da vida. Antes, escreveu outro livro de cariz bíblico e religioso, lançando “Through a Glass, Darkly” (1993, citação de uma das epístolas de São Paulo aos coríntios), que imbuiu de um diálogo entre Cecilia, uma menina com uma doença terminal, e Ariel, um anjo que vai ter à janela do seu quarto, sobre o sentido da vida. Em 2001, “The Ringmaster’s Daughter” conta a história de um vendedor de ideias e de histórias aos outros que se perde entre amores e a necessidade de fugir por via do seu ofício. Dois anos depois, “The Orange Girl” configura um quebra-cabeças que Georg herda do seu pai, que havia morrido, à procura da identidade da rapariga das laranjas, baseada num conto que descobre na correspondência dele.

Pelos seus resultados literários, viria a ser condecorado com várias honras e prémios da literatura norueguesa, para além do Deutscher Jugendliteraturpreis (prémio alemão de literatura infantil) com “Sophie’s World”, o Premio Bancarella (italiano) e o Buxtehude Bull (também alemão e também destinado a contos infantis). Tendo sido premiado com tudo isto na década de 90, seria nomeado comandante na Real Ordem Norueguesa de Santo Olavo, assim como receberia um doutoramento honoris causa da Trinity College, de Dublin, Irlanda. No entanto, receberia algumas críticas menos positivas, que o acusavam de transmitir uma filosofia como um romance de ideias.

“Se fosses tu que tivesses criado o mundo, com certeza também serias sensível às críticas. Estamos a falar sobre coisas de uma importância tremenda. Apesar de Deus ter contemplado tudo o que criou, e ter achado que tudo era extremamente bom, isso não significa que as coisas não poderiam ser diferentes”.

“Through a Glass, Darkly” (1993)

Gaarder deteve, desde cedo, uma consciência muito direcionada para a necessidade de tornar o galopante desenvolvimento das cidades e dos países mais sustentável, evitando lesar o ambiente. Ao lado da sua esposa, o autor estabeleceria um prémio ambiental denominado Sophie Prize, no ano de 1997. Assim, concedeu 77 mil euros por cada prémio atribuído, reconhecendo esforços alternativos no desenvolvimento sustentável e amigo do ambiente. No entanto, a entrega do prémio cessaria no ano de 2013, em que deixou de ser concedido por falta de fundos.

Jostein Gaarder

Esta presença não se coibiu de se envolver politicamente, essencialmente naquilo que concerne a ocupação israelita da Palestina. Em 2006, no rescaldo do conflito entre Israel e Líbano, redigiu uma crónica intitulada “God’s Chosen People”, na qual contestou a legitimidade daquilo que Israel se tinha tornado após 1948, ano em que foi institucionalizado. Descreveu o judaísmo como uma religião arcaica e bélica, que contrastava com o conceito do reino de Deus como representativo de compaixão e de perdão. Várias seriam as vozes que surgiriam para acusar Gaarder de antissemitismo, numa crónica que, originalmente, foi escrita no “Aftenposten”, um dos principais jornais noruegueses.

“Pelo menos uma vez em cada quatro anos, as pessoas deveriam esforçar-se e perguntar-se como estão a avaliar a sua vida neste planeta. Elas precisam, por assim dizer, de tirar a colher da boca e perguntar-se para que estão a comer.”

“The Rare Bird” (1986)

Jostein Gaarder notabiliza-se como um dos autores contemporâneos provenientes da Escandinávia com mais fama na sua região e em todo o mundo, com uma obra que, embora direcionada a miúdos, faz ver a graúdos. O seu percurso filosófico coloca interrogações pertinentes e determinantes para a pertinente análise do quotidiano, que se cerca de dúvidas e de inquietações perante o ritmo alucinante da realidade. Enquanto a iluminação infantil ainda incandesce no coração das crianças, já os adultos se deparam, entre estudos e ocupações, com os profundos desgostos da existência humana. Em suma, a recuperação do viver com sabor e significado é uma das finalidades particulares da filosofia que é contada com os cronológicos saberes e experienciares.

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