Killer Mike e El-P juntam-se às vozes contra a injustiça social em “RTJ4”

por Bruno Victorino,    22 Junho, 2020
Killer Mike e El-P juntam-se às vozes contra a injustiça social em “RTJ4”
Capa do álbum
PUB

Recentemente, o cineasta afro-americano Spike Lee produziu uma curta-metragem onde editou as imagens da morte de Radio Raheem, personagem ficcional de Do The Right Thing” (1989), com as filmagens do assassinato de George Floyd. A banda sonora do filme contava com o êxito dos Public Enemy, Fight the Power”, conhecido pelo seu carácter revolucionário contra o poder estabelecido. Três décadas separam o filme da atualidade, trinta anos que correspondem também ao início da idade de ouro do hip hop americano. O quarto capítulo da saga Run The Jewels — duo que junta o rapper de Atlanta Killer Mike ao MC e produtor nova iorquino El-P — estabelece a ponte entre estes dois períodos, homenageando os primórdios do rap na sua forma e conteúdo, resultando num álbum político e premonitoriamente atual.

É notável a capacidade de reinvenção de El-P, criando (novamente) instrumentais perfeitamente adequados  à indignação que ambos os rappers professam nas suas letras. “This should be played at high volume” deveria aparecer como aviso para todos os ouvintes. RTJ4 está sempre em altas rotações, com beats que partem de uma base tradicional mas são remexidos pelo produtor, que os acelera — introduzindo progressivamente novos instrumentos, buzinas e sons metálicos — até distorcê-los ao ponto de experimentalismo. out of sight” utiliza um sample de “Misdemeanor”, de Foster Sylvers, de forma similar ao que Dr. Dre tinha feito para o êxito de The D.O.C., “It’s Funky Enough”, de 1989. ooh la la” tem como ponto de partida “DWYCK” (1992), dos Gang Starr. El Producto aproveita-se da familiaridade do ouvinte com a sonoridade característica da golden age para subvertê-la através da sua idiossincrática abordagem eletrónica e alternativa.

Nas rimas, Yankee and the Brave demonstram a química a que sempre nos habituaram, trocando versos de forma inventiva. Os MC’s estão mais revoltados com o estado do mundo do que nunca e demonstram-no sem meias palavras. Em walking in the snow”, provavelmente o ponto mais alto do álbum, ouvimos El-P: “Funny fact about a cage, they’re never built for just one group / So when that cage is done with them and you still poor, it come for you”, ao que Killer Mike acrescenta: “And every day on the evening news, they feed you fear for free / And you so numb, you watch the cops choke out a man like me / Until my voice goes from a shriek to whisper, “I can’t breathe””. Considerando que RTJ4 foi gravado anteriormente à morte de George Floyd, esta referência à morte de Eric Garner em 2014 não deixa de ser profética e testemunho da intemporalidade do problema. O refrão de Pharrell Williams em JU$T” — “Look at all these slave masters posin’ on yo’ dollar” — denuncia também o sistema capitalista como conivente da desigualdade e racismo enraizados na sociedade.

“a few words for the firing squad (radiation)”, última música de RTJ4, serve para o duo retirar o pé do acelerador e assumir uma postura mais introspectiva. O instrumental com sample de jazz é a rampa de lançamento perfeita para Killer Mike confessar: “It’d be a lie if I told you that I ever disdained the fortune and fame / But the presence of the pleasure never abstained me from any of the pain”, dedicando o álbum a todos aqueles que sofreram nas mãos do sistema opressor: This is for the do-gooders that the no-gooders used and then abused / For the truth tellers tied to the whippin’ post, left beaten, battered, bruised / For the ones whose body hung from a tree like a piece of strange fruit”.

Ao quarto projeto lançado, não restam dúvidas da relevância de Run The Jewels no panorama atual do hip hop norte-americano. RTJ4 alinha-se com a música dos Public Enemy, a literatura de James Baldwin, o cinema de Spike Lee ou os discursos de Martin Luther King Jr. e Malcolm X. Killer Mike e El-P fazem-se valer da arte para enfrentar a injustiça social, colocando os seus nomes junto aos grandes ativistas dos direitos civis, dando voz a todos aqueles que ainda hoje não se conseguem fazer ouvir.

Gostas do trabalho da Comunidade Cultura e Arte?

Podes apoiar a partir de 1€ por mês.

Artigos Relacionados