Sound Ancestors: o desvendar da cortina de Madlib

por Miguel de Almeida Santos,    22 Fevereiro, 2021
<i>Sound Ancestors</i>: o desvendar da cortina de Madlib
Capa do disco
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Madlib está de volta. Otis Jackson Jr. aliou-se ao músico e amigo Kieran Hebden — mais conhecido como Four Tet —, que ao longo de vários anos recebeu material do mítico produtor norte-americano e compilou, editou e combinou os temas num projecto coeso. Sound Ancestors é o resultado desta colaboração, lançado pela editora Madlib Invazion.

O título do álbum remete-nos para o que precedeu a Madlib, mas o conteúdo assegura-nos que é definitivamente seu. Ao longo da sua carreira, Jackson tem sido um dos mais requisitados produtores do underground, trabalhando com nomes como Freddie Gibbs (no clássico Piñata e em Bandana, que para tal estatuto caminha) e MF DOOM (com quem criou a obra-prima Madvillainy), enaltecendo as palavras de rappers com as suas batidas inventivas que revelam um ouvido muito atento, bem como trilhando uma carreira a solo sem igual no panorama musical. Em Sound Ancestors, não se ouvem barras mas a genialidade de Madlib continua a transparecer.

Madlib no ID_NOLIMITS, no Estoril. Fotografia de João Rosa / CCA

A virtude de Madlib passa muitas vezes pela maneira como trabalha um sample ou como junta duas músicas diferentes. Sobre o primeiro exemplo, podemos ouvir “Two for 2 – For Dilla”, uma ode a outro grande produtor de hip hop já falecido, J Dilla. Na primeira parte da música, Madlib enaltece alguns elementos do tema original sem nunca o modificar radicalmente. Depois, a mudança de beat enche os ouvidos de boas vibrações. Sobre o segundo exemplo, “Road of the Lonely Ones” é a prova disso: dois samples são sobrepostos num tema melancólico e que convida à reflexão, e a fenomenal bateria a estalar encaixa perfeitamente com o clamor da voz aguda.

Há espaço para a experimentação, sendo o exemplo mais claro a faixa-título, aliando a improvisação jazz a algo mais tribal e acústico, numa homenagem às influências de Madlib. Em “Loose Goose”, também há algo de ecléctico e experimental: ouvimos um humoroso sample de Snoop Dogg e o seu tom nasalado acasala bem com os sopros pitorescos. Jackson altera a ordem instrumental da música original e dá-lhe outro tom, algo mais abstracto e expansivo. 

É clara a pesquisa voraz de Madlib por aquele sample perfeito, a obsessão sonora que lhe ocupa grande parte do tempo alocado para a produção musical. “Hang Out (Phone Off)” funciona como uma metáfora para essa sua árdua tarefa: é preciso gastar tempo para produzir algo de valor, e este curto tema que se assemelha a um interlúdio, em que o sample vocal se repete até ao fim do tema, parece remeter para essa mensagem. Da mesma forma, Sound Ancestors é um projecto que funciona melhor como um desvendar do processo criativo de Madlib do que como um álbum a solo.

Há grandes temas neste projecto, como a saudosista “Theme De Crabtree” (desafio alguém a não abanar a cabeça ao som desta batida); “Hopprock”, de começo esparso e que se revela como um potente exercício de tensão sem libertação; a já referida e magnânima “Road of the Lonely Ones” ou a caoticamente bem estruturada “One for Quartabê / Right Now”. Mas há também ideias que mereciam ser melhor exploradas e desvendadas, pois demonstram potencial sem nunca o expressarem totalmente, como a expectante “Latino Negro”, que nunca chega a atingir o seu clímax, ou a repetitiva “Dirtknock”.

As várias mudanças de beat que ouvimos, a insistência de alguns temas não ficarem muito tempo numa certa batida ou as interrupções abruptas com outros elementos, tudo isto nos oferece um vislumbre em relação ao trabalho de Madlib e como alguém que o conhece (neste caso Four Tet) conjuga o seu trabalho num álbum. É sem dúvida um projecto interessante, que vale a pena descobrir. Mas, por vezes, a falta de foco não funciona a seu favor, revelando um álbum que convida a ser apreciado como um prazeroso desvendar da cortina.

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