Entrevista. Silva: “Acho o Brasil um país punk, não é para iniciantes”

por Bernardo Crastes,    23 Dezembro, 2020
Entrevista. Silva: “Acho o Brasil um país punk, não é para iniciantes”
Fotografia de João Arraes. Cedida pelo artista
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Silva é um dos nomes mais consensuais da música contemporânea brasileira. Desde os seus primórdios de indie pop que o artista já fez um pouco de tudo, agora mais focado nas raízes da cultura brasileira, que tanto admira. Em entrevista à Comunidade Cultura e Arte, o músico falou sobre Cinco — o seu novo disco — sobre ter uma atitude otimista perante a vida e a música, sobre a sua relação com o público em concerto e ainda sobre o futuro do Brasil. O músico manteve sempre uma postura calorosa e franca, quer a falar sobre política — em que admite não ser tão letrado e reconhece a importância de ler extensivamente antes de se pronunciar sobre a mesma —, como a falar sobre música, momentos nos quais o seu entusiasmo se redobrava. Silva é um músico de alma e coração, e isso passa realmente para a sua música.

Um dos motes do Cinco é que “a vida, mesmo quando dura, vale a pena ser vivida com leveza e beleza”. Como surgiu esse conceito? Está relacionado com o momento que atravessamos?
Esse é o meu gosto como compositor. Acho que o legal da música é isso, tem para todos os gostos, para todas as horas. Eu não gosto de passar o meu tédio para as pessoas, os meus dias ruins, aquela escrita “toma aqui, gente, eu tou odiando viver”. Eu já tive uma fase assim — sou super fã de Radiohead, por exemplo. Adoro coisas que têm isso, mas em geral, na minha produção, o que eu gosto de criar são coisas mais suaves, porque eu acho que de pesado já basta a nossa vida, né? Acho que todo o mundo já tem os próprios problemas, os próprios demónios. Eu acho que, quando eu quero fazer música, não é um momento que eu goste de ficar falando de coisas tristes e pesadas; gosto que seja uma coisa que desligue um pouco a gente dessa realidade. Isso pode ser um pouco escapista, pode soar um pouco querendo fugir da realidade, mas eu não vejo problema não. Eu tento fugir da realidade vários momentos da vida [risos]. Eu acho que isso me deixa mais forte para encarar a realidade, sabe? Acho que nesses momentos angustiantes, como foi o ano 2020, a alegria é como se fosse uma forma de resistência. Não quero deixar que o mundo, que a gente sabe que já não está dando muito certo, tome a frente da minha vida e vire uma coisa central. Então eu estou buscando nesse disco ser mais feliz, mesmo. E é um esforço não deixar a angústia desse momento tomar conta, é um esforço grande que a gente tem de fazer.

Em algumas entrevistas anteriores, falas muito de não querer ser abertamente político. Continuas firme nessa postura?
Pois é, eu acabo sendo, eu não me aguento. Eu só não quero colocar isso como primeiro plano, sabe? Como se toda a vez que eu fosse falar de música, eu tivesse de falar de política, também. Eu tenho amigos assim, que enveredaram para o lado da política porque eles também sabem muito, eles gastam muito tempo lendo sobre política. Eu não gasto esse tempo, não tenho paciência. Eu gosto de música, eu ouço música o dia inteiro. Quando eu leio, eu gosto de ler biografia — tou lendo agora a biografia da Billie Holiday. Adoro ler sobre música, ver show, ver documentário. Então não gasto muito tempo com política ou filosofia. Uma vez ou outra acho importante ler as coisas principais, talvez os clássicos. Também não estou sendo tipo Bolsonaro, pregando contra a erudição, pelo contrário. Quanto mais conhecimento a gente tiver, tá ótimo, nunca vou falar contra isso. Eu acho que eu entendo o meu lugar de músico. Acho que cada um tem uma função na vida: tem cantores que têm uma função que eles entendem como mais filosófica e política e se colocam nesse lugar; eu sou músico, o que eu sei fazer é música. Sempre estudei música e o que eu quero é cantar melhor. Quero amadurecer cantando melhor, amadurecer o jeito que eu canto, o jeito que eu componho e gastar tempo com isso, que acho que é o melhor que eu consigo fazer. Acho que o meu negócio é música, mesmo.

Será que esse teu foco no amor e na beleza vem de um desejo de criar músicas mais intemporais?
Super, eu acho que sim. Eu tenho um fascínio pela atemporalidade, acho uma coisa muito bonita de conseguir numa produção. Pegue um álbum que você ouvia em 2010 — que é recente, tem 10 anos. Tem coisas que eu ouvia em 2010, que eu hoje ouço e já não gosto tanto. Quando envolve tecnologia, esses programas de produção musical evoluem como se fossem um smartphone e todo o ano tem uma coisa diferente. Então, aquele som de um software de 2020 já é um som muito melhor em termos de sample rate, em termos de qualidade de áudio, do que é um software de 2010. Se você depender dessa produção musical, ela fica para trás muito rápido. Ao mesmo tempo, quando você pega um piano, um piano vai ser sempre um piano. Com um sintetizador bom — estou falando de um sintetizador analógico, não um software — você tem um som muito quente. Esse tipo de coisa envelhece muito melhor, porque são sons quentes, reais. Nenhuma nota é igual. Se você olhar a onda sonora de um sintetizador analógico, ela tem muitas variações. Acho que isso deixa a coisa muito mais real. Então comecei a olhar para essas coisas e a pensar que não queria que o meu disco soasse tacky. Eu comecei a olhar que o circuito de música indie — e não só indie, música pop também — é como se fosse uma estação de moda: a cada 6 meses tem uns trends que as pessoas vão seguir. Eu já fiz isso, já fiz isso mais novo, nos primeiros discos era super antenado. Eu comecei a ver que isso não te garante uma carreira longa. Isso não garante que o seu disco daqui a 10 anos vai ser ouvido com bons ouvidos, pode ser que soe muito mal.

Começaste no indie pop mais eletrónico e agora estás numa coisa mais próxima das tuas raízes, do Brasil. Sentes que a tua carreira e o teu som vão continuar a mudar ou encontraste esse lugar confortável?
Comecei a viajar pelo mundo e acho que a coisa mais me deu um tapa na cabeça foi quando eu fui para a Red Bull Music Academy, em Tóquio. Eu percebi que se eu não fosse mais brasileiro, se eu não trouxesse alguma coisa de onde eu venho, eu seria mais um. Se eu for cantar em inglês e usar um Prophet 08, eu vou competir com James Blake. Eu vou entrar numa onda de fazer uma coisa meio londrina e… porquê? Foda-se, eu sou brasileiro, sou de Vitória, Espírito Santo. Acho uma falta de conhecimento histórico, de saber de onde você vem, o que você é, o que você representa; acho muito pobre. Acho que está tudo bem também, se é uma música que te emociona, mas não é o que eu quero ser. Gosto muito de ser brasileiro — apesar da política desastrosa do meu país, que eu tenho essa noção. Mas culturalmente eu acho o Brasil um país muito interessante. Eu acho que eu estaria dando muito mole em trocar isso para tentar ser aceite num grupo nova-iorquino, londrino, sabe?

De onde vieram as influências do ska e do reggae? Porque é que decidiste incluí-las no disco?
Amo ska e reggae. Tem uma coisa que eu adoro, que é o que chamam de pré-reggae, o rocksteady. Adoro essa fase, que é tipo um reggae da Jamaica antes de ser rasta, então ele tinha uma influência mais soul. É uma coisa que eu tenho ouvido de uns cinco anos para cá, comecei a ouvir muito. Como eu moro numa cidade de praia, moro do ladinho da praia, adoro colocar isso para ouvir e caminhar, é uma coisa que me inspira muito. Só que eu ouvia e não trazia isso para o meu trabalho. Quando eu fazia as minhas músicas, imaginava uma outra coisa. Depois eu comecei a falar “porque é que eu ouço tanto isso e não faço?” E aí comecei a perceber que ska e reggae combinam bem com música brasileira. Essa coisa brasileira que eu acho que combina com jazz também, e combina de alguma forma com o R&B e o hip hop. Pitadas disso, eu gosto.

O que surge primeiro na tua música, normalmente: a música ou a letra?
Geralmente é a música. É a melodia — um “la la la” —, às vezes uma batida, às vezes uma sequência harmónica. Depois vem a letra, geralmente é assim. Muito raro vir a letra antes.

Como é trabalhar com uma super estrela da pop como a Anitta?
Acho a Anitta uma figura. Adoro o jeito que ela me trata, ela me respeita como músico. Eu lembro quando a gente se conheceu a primeira vez, ela ficou assim “a única diva pop que eu imagino para você é a Amy Winehouse”. Eu falei “você tá me julgando” [risos]. Mas ela acertou, eu nunca fui tanto diva pop, sempre amei as cantoras de jazz, as minhas divas pop sempre foram as jazz singers Billie Holiday, Sarah Vaughan. Aí está, a gente tem essa relação boa, eu já sei que ela me respeita e então gosto disso, mesmo sabendo que somos de meios muito diferentes. Eu mandei para ela a música [“Facinho”] — “Ei patroa, vamos fazer um hit de novo?” — e ela adora essas coisas. Eu mandei, ela adorou e uns cinco dias depois ela já me mandou o vocal prontinho. Isso é uma coisa que eu admiro muito nela, ela é muito hard worker, o que ela fala que vai fazer, ela faz. Ainda não sei se a gente vai fazer a tripla ou não, ela agora está nessa saga da carreira internacional dela e então vai ser difícil ter uma agenda.

[continuando a falar acerca das colaborações de Cinco] Criolo é um artista que eu amo muito. Você tem que ver um show do Criolo um dia, um show do Criolo é absurdo. Eu já tinha uma vontade de colaborar com ele, só que nós não tínhamos muito contato. Aí encontrei o Criolo em Salvador, na virada do ano, e a gente teve uma conversa muito boa sobre música. Aí a gente ficou nessa “ah, vamos colaborar em breve”. Eu mandei para ele, ele gostou da música [“Soprou”] também e aí — a última parte da música foi ele que escreveu — ele me mandou e falou assim “cara, tomei a liberdade de criar essa última parte”. Eu amei, caramba, era exatamente isso que a música precisava, de uma virada.

E João Donato… cara, João Donato para mim é… tinha que ter um altar em casa com uma coisa dele, porque eu acho ele um absurdo de incrível. Ele tem uma coisa na música dele. Primeiro, ele é do Acre, que é o estado mais dentro da floresta amazónica, e eu falo “nunca vi ninguém do Acre. Quem sai do Acre?”. Como o Acre fica mais para a Colômbia, ele tem uma influência caribenha, já traz uma influência ali da América Central. Então ele misturou uma coisa brasileira amazónica caribenha com a samba e a bossa, faz uma mistura muito chique, muito jazzy. Então para mim eu acho uma honra gigantesca ter Donato, para mim foi a coisa mais chique que eu já fiz até aqui. Como músico, fico muito feliz.

Qual é a tua colaboração de sonho?
Nossa, tenho algumas. Caetano [Veloso] é uma delas. Caetano e [Gilberto] Gil, que ainda não fiz. Eu sou cara de pau, eu sempre tive essa coisa do “não eu já tenho [garantido]”, mas com ídolos, eu vou muito tranquilo. Uma hora, acontece. Ah, sabe um cara que eu amo? Não tem nada a ver, mas amaria fazer uma coisa com Four Tet. Acho ele um dos melhores produtores.

Fotografia de João Arraes. Cedida pelo artista

Falei com um amigo que me disse que, quando te viu ao vivo, ficou arrebatado pela forma como olhavas para as pessoas. É para ti muito importante ter essa relação com o público?
Isso é uma coisa que eu fui aprendendo, porque eu no começo mal dava “boa noite” e “obrigado”. Era muito tímido e essa timidez era pura insegurança. Eu nunca fui cantor de baile nem cantei em bar, e então não tinha uma sagacidade de público, assim de entrar e falar coisas. Com a experiência eu fui gostando mais disso, fui começando a gostar dessa troca, de olhar para as pessoas, falar alguma coisa e interagir. É isso que deixa um show único. As interações nunca vão ser as mesmas. Eu gosto muito, acho que a música ganha uma outra… [estala dedos] ela fica muito viva, vai mudando cada show. Isso é muito bom.

Já deste algum concerto nesta altura de pandemia?
Não. Fiz lives, que são estranhas, apesar de achar que são muito importantes, porque elas nos aproximam do público num momento que não vai ter esse contato. Mas ao mesmo tempo é estranho, porque não tem palma depois da música, você não está vendo a reação das pessoas… Você tem ali os comentários, mas é diferente, bem diferente.

Porque é que escolheste gravar o álbum ao vivo em Lisboa? [Ao Vivo em Lisboa, gravado no Capitólio, em Lisboa, em 2019, e lançado este ano]
Porque eu acho Lisboa uma cidade incrível. Ela tem o velho e o novo muito bem equilibrados, acho isso bem legal. Eu lembro de sair em baladas à noite e já vi coisas bem interessantes, DJs incríveis, bandas legais. Aí você vai para o Bairro Alto jantar, está a comer num lugar que é antigo, mas ao mesmo tempo é super cool. Come-se muito bem, bebe-se muito bem. Eu tenho amigos legais em Lisboa, acho que as pessoas são bem legais. Eu sempre fui muito bem recebido desde o começo. De pensar que nesse show do Mexefest [em 2013] eu era muito novo, acho que eu tinha 24 anos. Eu lembro que foi um show assim para mim “uau, nem acredito que tem gente cantando as músicas!” Então eu tenho memórias muito boas de Lisboa. E é isso. Não estava nos meus planos que esse show [do Capitólio] viraria um álbum, mas a gente resolveu gravar para documentar mesmo, para a gente guardar. E quando eu ouvi o material falei “nossa, o público estava quente, isso está bem legal”. Então aqueles shows do Capitólio foram uns shows em que eu fiquei bem impressionado com a resposta do público, achei o público muito caloroso e afim de estar ali.

Sentes que há brasileiros que passam a conhecer melhor a sua própria cultura através da tua música?
Hoje eu arrisco dizer que sim. Antes eu morria de medo de falar isso, porque poderia parecer pretensioso, mas ao mesmo tempo comecei a ver que se a gente que é criador ou compositor não levantar essa bandeira, o estrangeirismo… [pausa] É uma coisa que a Elis Regina já falava nos anos 80, perto de ela morrer, ela falava “tomem cuidado com as rádios, porque as rádios só tocam música americana”. Eu brinco com isso, digo que estou cansado de ouvir prima pobre da Beyoncé e da Rihanna e do Frank Ocean. Ô galera, vocês estão no país do Caetano Veloso, do Gilberto Gil e tanto artista incrível. Eu entendo a coisa do momento, de estar ali todo o mundo ouvindo, é moderno, pega no mundo todo. E você pode trazer essa referência, mas eu acho importante você trazer uma coisa do nosso lugar, também. Acho que isso acaba apresentando a cultura brasileira para quem só consome cultura de fora. Eu comecei a perceber isso quando pessoas mais novas me parabenizavam pelas músicas da Marisa [Monte, versões gravadas no álbum de 2016, Silva Canta Marisa]. Essa troca de geração é muito louca e as pessoas novas já não ouvem mais as coisas de catálogo. Acho importante não ser contra isso, mas apresentar uma coisa diferente.

O que é para ti ser brasileiro?
Tem uma relação de amor e ódio — não sei se chega a ser ódio, mas o brasileiro está sempre reclamando. O Tom Jobim tinha uma frase — quando ele voltou dos Estados Unidos, aí ele tinha feito um disco com o Frank Sinatra — sobre qual era a diferença entre o Brasil e os Estados Unidos. “Morar na América é muito bom, mas é uma merda, enquanto que morar no Brasil é uma merda, mas é muito bom.” [risos] Eu lembro que quando eu li isso, fiquei tipo “ah, meu Deus, é exatamente isso!” Eu amo muito a cultura brasileira, sou super orgulhoso dos escritores que a gente tem e dos músicos que a gente tem e do cinema… acho que é um país bem maluco e interessante. Antes eu tinha uma visão mais romântica de ser brasileiro, que eu mirava mais na cultura, mas depois eu comecei a ler que essa miscigenação que a gente viveu aqui não era uma coisa por acaso, era um plano de embranquecer a população. Tem várias coisas que eu comecei a ler que eu não aprendi na escola, que você fica “isso é pesado”. Então acho o Brasil um país punk, não é para iniciantes. A gente está vivendo um momento super violento. Então é assim, a gente vive nessa dualidade de querer mudar as coisas — a educação, o sistema carcerário, a política pública, segurança pública — e amar a cultura.

Qual é para ti o maior desafio para o futuro do Brasil?
Acho que é conseguir diminuir o abismo social, o abismo que separa as classes. A nossa elite é muito sem visão. Então, vários avanços que o Brasil teve nos últimos anos, de conseguir sair da linha da pobreza, de conseguir diminuir… agora já voltou tudo, a fome aumentou para caramba. Então é um país que precisa de muita coisa para ser considerado um país que está num lugar bom. Acho que é isso, primeiramente garantir para as pessoas o mínimo de dignidade — educação, uma renda básica decente. Acho que esse é o único caminho, a renda básica. Estou vendo muita gente falando sobre isso. Ainda não li tanto para poder opinar sobre isso, mas ao mesmo tempo eu fico esperançoso, porque eu vejo muita gente lutando. Eu fiquei muito feliz de ver essas últimas eleições [municipais do Brasil, decorridas em Novembro passado], ver mulher trans preta ser eleita, muitos homens gays, muitas mulheres; isso me deixa mais esperançoso. Porque não tem como, se a gente quer que a política seja mais diversificada e feita para todos, a gente tem que eleger pessoas que representam não só o homem branco hetero.

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